Sou artista visual com formação acadêmica em Publicidade e Propaganda pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, onde também estudei Arquitetura.
Em relação à estética sou muito inquieto, estou sempre em busca de novas possibilidades que levem a resultados inusitados. Acredito que os meios utilizados para criar determinam a estética e geram sua própria linguagem e repertório.
Fiz minhas primeiras gravuras digitais em 1994 ao tomar contato com equipamentos de computação gráfica e programas de edição de imagem. Estas aconteceram a título de estudo e experimentação.
Atualmente me dedico a uma técnica chamada 'Databend', onde as imagens são manipulados por intervenção direta em seu código fonte através de editores de áudio, editores hexadecimais e outras ferramentas e processos digitais que, em seu 'modus operandi' normal, não são utilizadas para criação visual.
O foco de meu trabalho é a mídia digital. Desenvolvo-o no sentido de buscar procedimentos e linguagens que permitam expressar possibilidades ocultas nesta mídia, suscitando a percepção do digital de uma forma diferente, essencial e espontânea.
Apresento aqui duas fases distintas de meu trabalho com gravura digital:
2006 a 2008 - trabalhos de gravura a partir de imagens capturadas por camera digital, nos quais não utilizo pincéis, tintas e técnicas de pintura digital. Os originais são trabalhados em 'layers' (camadas), e a cada uma destas camadas é dada um tratamento específico e um tipo de sobreposição com as outras. Formas, cores e texturas são obtidas como num processo de gravura. Neste busco de uma 'Poética Visual' que faça uma síntese entre fotografia, pintura, e gravura.
2008 a 2010 - trabalhos com 'Databending' (Glitch Art). Onde as imagens são manipuladas utilizando editores de áudio, editores de código fonte, scripts e falhas de reinterpretação de imagens provocadas por erros em aplicativos gráficos e codecs. Observando estas falhas busco padrões para desenvolver novos processos e imagens. A 'Glitch Art' está presente neste trabalho na linguagem visual inerente aos procedimentos utilizados para criar. ('databending' significa, literalmente, 'torcer a informação').
Sobre Glitch Art e Databending:
Meu primeiro contato com 'Glitch Art' e 'Databend' foi no final de 2007 através de uma matéria publicada na Folha Online. Esta matéria me remeteu aos grupos do Flickr onde posto imagens e troco informações desde 2008. Esta interação foi crucial para o desenvolvimento e divulgação de meu trabalho com esta técnica, o qual recebeu o prêmio 'CRITICAL GLITCH ARTWARE' no 'BLOCKPARTY/NOTACON 2010', evento anual de 'New Media Art', realizado em Cleveland - OHIO.
Exploro a estética do erro digital (Glitch Art) pois percebo que entre as ferramentas digitais que utilizamos - buscando não erros, mas acertos - existem possibilidades ocultas, voláteis, que implicam em experimentação e que manifestam uma interpretação visual da informação digital sem precedente.
Como conceito e intenção estética sugiro que a arte visual digital se manifeste de uma forma legitima e visceral, ou seja, independentemente de procedimentos usuais em aplicativos específicos. Sugiro que os processos que ocorrem no computador sejam acompanhados, compreendidos para que possamos interferir neles diretamente criando novos caminhos e interpretações da realidade digital.
Acho importante a utilização do erro na arte digital pois através dele pode-se romper o estado de suspensão que ficamos diante do fluxo normal da informação digital - o erro quebra a aparente linearidade do fluxo da informação digital gerando uma lacuna na comunicação que dá lugar ao ruído, o qual pode ser considerado como um processo/informação não válido ou capturado enquanto 'glitch' e fixado enquanto técnica e linguagem visual. Esta lacuna na comunicação que o erro provoca cria uma oportunidade para novas percepções e novos procedimentos que estão além dos limites que a tecnologia - criada para não errar - normalmente disponibiliza.
Acredito numa arte visual digital que seja livre, que traga em si uma compreensão e uma observação mais profunda do meio digital, permitindo que o artista se expresse através destas mídias usando linguagens, processos e elementos que são inerentes à elas.
O erro digital é um campo aberto de investigação, compreendendo como ocorrem, observando seus resultados, estabelece-se um diálogo com as falhas de sistema, diálogo este que transforma o erro em elemento que inspira a criação, e os processos nele envolvidos em novos procedimentos para criar.
Considero que os artistas digitais não precisam ficar presos ao seu software e hardware específicos. Proponho que sejam desconstruídas as convenções no uso da máquina, gerando condições para explorar os limites entre os aplicativos, formatos de arquivo, protocolos e hardware.
Acho pertinente sugerir que o computador possa ser usado de formas alternativas, que suscitem a percepção da imagem digital através de uma linguagem que manifeste sua essência e estrutura.
Atribuo meu interesse por 'Glitch Art' e 'Databend' a uma inquietação relacionada com fato de que, do ponto de vista conceitual e estético, fazer arte usando ferramentas digitais e fazer arte digital podem ser coisas diferentes.
Exploro o erro (glitch) nas mídias digitais pois vejo neste a oportunidade de descortinar elementos e processos inerentes à estrutura da informação, possibilitando capturar este erro enquanto arte visual, compreender e utilizar seus processos enquanto técnica, e fixar seus padrões enquanto linguagem.
José Irion Neto - 23/11/2010